O franco-atirador

Na Vila de Santo Antonio do Juquiá, por volta de 1926, o sobrado do velho Henrique Vassão dominava a margem direita do rio, a uns 50 ou 60 metros da mesma. À sua direita, o porto da balsa, tosca embarcação presa por uma roldana a um cabo de aço que atravessava o rio. A roldana, devidamente manuseada, fazia com que a balsa atravessasse o rio de um lado para outro, pela ação da correnteza. Pequenos veículos, animais e pessoas faziam assim a travessia do rio Juquiá da Estação para a Vila e vice-versa. Numa certa época, as pessoas começaram a notar um fato estranho. Vez ou outra, um cachorro vira-latas que estivesse a beber à beira do rio, de repente soltava um “au”, caía morto dentro d’água e era levado pela correnteza. Chegou-se a pensar em alguma epidemia canina. O fato se repetiu algumas vezes, depois foi se tornando esporádico e caiu no esquecimento. O que pouca gente ficou sabendo, foi que o jovem Joaquim, escondido no sótão do sobrado do pai com sua Winchester de tiro único, praticava o esporte que o tornaria conhecido e respeitado em toda a região: O Tiro ao Alvo.

 

 

Caçada improvisada

Joaquim, Willes e Fernando. Três irmãos diferentes em muitas coisas, mas com uma paixão em comum – a caça. Sempre que podiam, lá iam os três para a Barra do Quilombo, sítio do primo João Alves Vassão, conhecido como João Pacca. Poderia até se dizer que a casa do primo era uma extensão de suas próprias casas, tantas eram as caçadas. Capivaras, pacas e quatis eram abundantes na região e suas carnes deliciosas nunca faltaram no cardápio das famílias. Certa vez, tendo já programado uma caçada, receberam recado do primo João Pacca, dando conta de que o cachorro caçador havia morrido. E agora? Sem um bom cachorro para farejar e levantar a caça, nada feito! Pensaram, pensaram e acharam a solução. No dia combinado, carregaram a canoa a motor com toda a tralha necessária à viagem e, por conta de uns pedaços de carne e outras guloseimas, atraíram para a embarcação meia dúzia de vira-latas que perambulavam famintos pela beira do rio. Soltaram as amarras, deram partida no Johnson 22 e lá se foram rumo à Barra do Quilombo. Lá chegando, soltaram os cachorros no mato e… Bem, não sei dizer quantos cachorros voltaram, mas as pacas e capivaras que a caçada rendeu, podem muito bem ter morrido de susto, tamanho foi o alarido que os vira-latas fizeram ao adentrar na mata.

 

 

Olympio Adorno Vassão

Foi Prefeito Municipal de Juquiá em dois mandatos e vereador à Câmara Municipal de Miracatú, mas sua verdadeira vocação era a Igreja Presbiteriana à qual prestou relevantes serviços. Exerceu cargos de importancia nas Igrejas de Juquiá, Registro e Sorocaba. Foi também representante nas reuniões do Supremo Concílio em Fortaleza, Garanhuns e Belo Horizonte, onde foi eleito membro do Conselho de Imprensa. Lutando na Revolução de 32, conheceu a futura esposa Alice, que colaborava como enfermeira. Num dos três livros que escreveu – Corrida atrás do Tempo – nos fala de seu bisavô, “seu”Adorno, canoeiro famoso do Peroupava. Era o pai de Joaquim Adorno Sobral, que viria a ser o Patriarca desta imensa família.Tia Alice, cabelos alvos como a neve, porém a mente lúcida, uma verdadeira enciclopédia da Família Vassão, muito nos ajudou quando da elaboração deste Site. A ela devemos muitas das informações e nomes constantes desta páginas. No final de 2005, Deus a levou para junto do esposo amado, deixando muitas saudades.

 

 

Matathias Vassão

Sãopaulino roxo, tinha até cadeira cativa no Morumbi. Foi sempre ligado à Igreja Presbiteriana, onde exerceu os cargos de Diácono e Presbítero. Foi também ligado à política do Vale do Ribeira, sendo vereador em Juquiá por três vezes. Desgostoso com os rumos da política em Juquiá, dela se afastou desolado. Teve Cartório de Notas e Registro Civil. Após perder os Cartórios por seu antigo envolvimento com a política, mudou-se para Santos mas voltava sempre à Juquiá, onde dedicava-se à corretagem de terras. Dizia-se que conhecia cada palmo de terra do Vale do Ribeira. Sua esposa Augusta, companheira e braço-direito, vive ainda em Juquiá, na mesma casa onde começaram sua vida em comum. Depois dos filhos e dos netos seu amor maior são as plantas que cultiva e com as quais conversa amorosamente.

 

 

Fernando Adorno Vassão

Talvez o mais austero dos irmãos na criação dos filhos. Estes chegavam a se esconder do pai no dia de seus aniversários. O “presente” que titio costumava dar aos filhos era um puxão de orelhas, daqueles que ficavam doendo por vários dias. Era para dar juízo, dizia ele. E com certeza deu. Quem conhece a imensa família que deixou e a união que reina entre eles, há de concordar que sim. Ainda me lembro das vacas que criava para a distribuição de leite. Foi gerente e homem de confiança da firma N.Doi & Cia. Por muitos anos. Após o fechamento da firma, continuou labutando no ramos de motores de popa. Não tinha um que não tivesse conserto. Quando precisava tinha sempre a ajuda do mano Joaquim, outro “especialista” no assunto. Entretanto, jamais deixou de ser um baluarte da Igreja Presbiteriana, na qual foi Diácono e Presbítero. Sua Segunda esposa, Maria, é até hoje um exemplo de vida com seu espírito forte e sua fé inabalável nos ensinamentos de Cristo. Vive ainda em Registro, junto aos filhos, netos e bisnetos.

 

 

Willes Adorno Vassão

Foi, em sua época, o homem mais gordo do Vale do Ribeira, chegando aos 150 quilos. Mas o que mais chamava atenção nele não era seu peso e sim sua afabilidade, seu jeito bonachão. Com todo aquele tamanho, era ágil e descontraído. Nadava e dirigia seu velho caminhão com perícia e agilidade. O local onde tinha seu sítio, à margem esquerda do rio Ribeira, em Registro, foi por ele batizado de Paraguai. Era conhecido e querido por todos, principalmente na zona rural, que percorria freqüentemente fazendo avaliação de terras para o Banco do Brasil. Quando Registro ainda não era comarca, exerceu por varias vezes o cargo de Delegado de Polícia nomeado, mercê de sua probidade e competência. Clélia, a esposa dedicada, apesar de sua compleição franzina era forte o bastante para ajuda-lo na administração do sitio e dos animais, que incluíam vacas leiteiras, porcos e galinhas. Afinal, como ele, ela também tinha sangue italiano… Tia Clélia também descansa ao seu lado no sono eterno

 

 

Joaquim Adorno Vassão

Logo após a segunda guerra mundial, a gasolina era escassa e racionada e ele tinha um caminhão “International” com o qual transportava palmito para São Paulo. Ouviu falar do gasogênio, substituto da gasolina. Era cara sua instalação ? Tudo bem! Conseguiu uns tubos velhos, uma ventoinha manual e, com uma solda aqui, outra ali, em alguns dias seu caminhão estava rodando com carvão. Mais tarde, seu serviço no Departamento de Correios e Telégrafos era o transporte das malas postais entre Registro e Sete Barras. Eram 18 quilômetros de estrada de terra, que ele percorria uma vez por dia em seu velho Ford 35. Para ajudar nas despesas, levava passageiros, sempre lotado. Como levar mais passageiros? Inverteu as dobradiças do porta-malas, adaptou um banco e alí estava o “banco da sogra”. Mais dois passageiros que entravam morenos e saiam loirinhos de tanta poeira… Sua perícia e pontaria com uma arma foram de certa forma benéficas para a população. Com autorização do Delegado de Polícia, levava sempre sua espingarda ou uma pistola no calhambeque. Nessa época, carente de estradas e comunicações, mordida de cão raivoso equivalia a uma condenação à morte. Assim, em qualquer lugar que visse um cachorro, parava o carro e assobiava para o animal. Se este levantava a cabeça e abanava o rabo, estava salvo. Mas se o olhava com a cabeça e o rabo abaixados, o tiro vinha certeiro – bem entre os olhos. Melhor prevenir… Apesar de ter lutado na Revolução de 32, nunca tocou nesse assunto com os filhos. Com tanta pontaria, fico a imaginar o porquê desse silencio… A esposa Elzira, sempre dedicada e presente, viveu seus últimos anos em Eldorado, sua terra natal. Deus a levou aos 90 anos de idade. Descansa agora ao lado do esposo nos deixando uma lição de vida e muita saudade.

 

Rev. Amantino Adorno Vassão

O Rev. Amantino Adorno Vassão foi pastor efetivo das igrejas presbiterianas de Iguape, no litoral sul de São Paulo, nos anos de 1934 a 1936; da igreja da Lapa, na capital, nos anos de 1936 a 1944, e da Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro, a Catedral Presbiteriana do Rio, de 1945 até a sua jubilação, em 27 de setembro de 1980. Estudioso e culto, traduziu, do inglês para o português diversos livros de autoria do Rev. Robert Schuller, de Billy Graham, de C.S. Lewis e de outros autores de língua inglesa. Escreveu, ele próprio, “Esteiras de Luz”, “Mesmo na Tempestade”, “Armadura do Cristão” e o folheto “Otimismo Cristão”, além de artigos em jornais e revistas. Foi secretário executivo do Presbitério do Rio de Janeiro, do Sínodo Central e do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil, este por doze anos. Foi presidente do Presbitério do Rio de Janeiro, do Sínodo Central e do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil. Foi, também, presidente do Rotary Club da Tijuca, da Confederação Evangélica do Brasil e do Conselho Inter-Presbiteriano. Em 1934 casou-se, em São Paulo, com Celestina Lopes, portuguesa de nascimento. Desde o casamento nasceram dois filhos: Paulo Enéias Lopes Vassão e Amantino Adorno Vassão Júnior. Com o falecimento de D. Celestina, em 1974, experimentou a dor da solidão. Depois de mais de 40 anos, reencontra-se com a antiga colega de turma no Mackenzie, Annita Lou Mac-Knight, que também havia ficado viúva. Pouco tempo depois, em 1.º de março de 1975, com ela contraiu novas núpcias, na cidade de Americana, vindo a fixar residência em Niterói, RJ. Recebeu da Assembléia Legislativa o título honorífico de Cidadão do Estado da Guanabara. Das igrejas presbiterianas da Lapa, em São Paulo, e do Rio de Janeiro, recebeu o título de Pastor Emérito, graças ao zelo, à dedicação, ao amor e à competência com que nelas exerceu o ministério sagrado. Administrador habilidoso e competente, o Rev. Amantino Adorno Vassão, mackenzista de coração, representou a Igreja Presbiteriana do Brasil nas negociações com o Board of Trustees, de Nova York, EUA, que resultaram, em 1961, na transferência, por doação, das propriedades do Mackenzie para a Igreja Presbiteriana do Brasil. De 27 de setembro de 1980 a janeiro de 1997, o Rev. Amantino foi pastor de almas, sem encargos administrativos, na Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro – Catedral Presbiteriana, que o tratava carinhosamente de “O Patriarca”. Na madrugada de 30 de janeiro de 1997, Deus recolheu sua alma, e seu corpo foi sepultado na tarde daquele mesmo dia, na cidade do Rio de Janeiro, tendo oficiado a cerimônia o Rev. Guilhermino Cunha que o sucedeu no pastorado da Catedral Presbiteriana do Rio de Janeiro

 

 

Um homem à frente do seu tempo

Homenagem enviada pelo seu neto Cícero André G. C. Vassão

No próximo dia 17 de julho, quando o país comemorar (com muita justiça) os dez anos da conquista do tetra campeonato mundial de futebol, nós, viúva, filhos, netos e bisnetos do Engenheiro Cícero Marques Vassão relembraremos uma década de seu falecimento. Natural de Curitiba, nessa cidade ele realizou seus estudos, formando-se em Engenharia no ano de 1942. Em 1946, já casado e com um filho, o Eng. Vassão é lotado no Ministério de Viação e Obras Públicas, em Pelotas, onde passa a se interessar pelos estudos limnológicos, realizando pesquisas sobre a salinidade da Lagoa Mirim e do Canal de São Gonçalo, que muito afetava as lavouras de arroz, concluindo pela necessidade da construção de uma barragem que regulasse o fluxo de água pelo canal. Seu conhecimento de toda essa região, conhecida como Baixada Sul-rio-grandense, fez com que fosse designado para participar da Comissão Mista Brasileiro-uruguaia que, a partir de 1961, procurou integrar as ações dos dois países que visavam o desenvolvimento econômico da região, no que ficou conhecido como o Programa Regional 35 (PR-35 FAO-ONU). Durante a década de 50 a atuação do Eng. Vassão, juntamente com a de outros cidadãos, foi fundamental para o estabelecimento de diversas instituições de ensino e pesquisa em Rio Grande, cidade para onde havia se transferido, destacando-se a criação da Fundação Cidade do Rio Grande, mantenedora da Escola de Engenharia Industrial (escola da qual foi o primeiro Diretor), e da Sociedade de Estudos Oceanográficos, mantenedora do Museu Oceanográfico (do qual foi o primeiro vice-presidente), apoiando também a criação da Faculdade de Ciências Políticas e Econômicas. Nesse período procedeu, entre outros, estudos para a ligação, por ponte, de Rio Grande à Ilha dos Marinheiros, de ampliação da hidráulica e de urbanização do Balneário Cassino. Sendo sua principal atividade profissional voltada ao setor portuário, delegado que era do Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis, passa o Eng. Vassão a estudar os problemas relacionados à infra-estrutura portuária voltada ao setor pesqueiro. Seu conhecimento sobre todos os aspectos dessa atividade levaram o Governo do Estado a designá-lo Secretário Executivo do GEDIP, grupo criado para ordenar o crescimento do setor pesqueiro e que foi objeto de nossa pesquisa recentemente desenvolvida junto a curso de especialização lato sensu da FURG. Na década de 70, já radicado em Porto Alegre, teve participação ativa no planejamento e na implantação do Superporto de Rio Grande, na qualidade de Sub-Diretor da 8ª Diretoria Regional do DNPVN, mantendo laços firmes com a Cidade do Rio Grande, tanto através de suas atividades profissionais quanto por intermédio de parte de seus descendentes, que nela permaneceram. Em reconhecimento aos serviços prestados à cidade, em 1978 a Câmara de Vereadores de Rio Grande, atendendo proposição do então Vereador Edes Cunha, concedeu ao Eng. Cícero Marques Vassão o título de Cidadão Rio-grandino. Após seu falecimento recebeu homenagens da FURG, cujo Prédio Central do Campus Cidade leva seu nome, e da Administração Municipal, que concedeu seu nome a uma avenida do Balneário Cassino, em reconhecimento por suas ações em prol do desenvolvimento da cidade e da região, nas quais sempre demonstrou ser, realmente, um homem com uma visão a frente do seu tempo.

Eng. Cícero Marques Vassão
Filho de João Ribas, neto de Leopoldo Adorno Vassão